Foi o que a prof. convidada disse, enquanto explicava a origem da dança popular que vivenciamos na aula. Uma dança de origem quilombola que é usada como uma afirmação política, para demarcar quem são os donos na terra, e também como dívida religiosa, realizada pelos devotos da Nossa Senhora do Rosário. Ainda com essa temática de “Dança, expressão do sagrado”, ela nos questionou “o que recheia a dança de vocês?” e prosseguiu falando sobre essa dança popular que é recheada da história de um grupo de pessoas e é utilizada como uma forma de afirmar a existência desse povo e dessa história, que, do contrário, poderia ser apagada e esquecida. Ela disse que, diferente dela, e da maioria das nossas práticas de dança “artística”, eles precisam dançar para continuar existindo.

Isso me fez pensar sobre a minha relação com a ficção e o imaginário. De certa forma, a literatura e a dança sempre estiveram ligadas pra mim, e em ambos o que me fascina é essa possibilidade de suspensão de realidade. A prof. mencionou que no momento que se finca o mastro, está instaurada a festa, e um tempo-espaço especiais, ou seja, sagrados. O mesmo acontece comigo quando eu abro o livro que estou lendo e passo um tanto de horas mergulhada em um tempo-espaço que não são lineares. O que recheia a minha dança? Eu fiquei pensando sobre isso, e acho que o que recheia a minha dança é a necessidade de imaginar que meu corpo é maior que a sua materialidade. Eu danço para ocupar um espaço diferente e criar, de certa forma, uma realidade mágica.

Coincidentemente, estou lendo um livro de realismo mágico, em que também se encontram aspectos de suspensão de realidade, e os personagens confrontam aquilo que acreditam ser real, versus o que é inventado, de certa forma, nunca se sabe o que é verdade e o que é ficção. 

E essa aula trouxe de volta essa noção do que é o mágico que está presente na nossa experiência cotidiana de realidade. Não precisa estar ligado a um dogma, a uma divindade específica, ou a um ritual institucionalizado. Mas existem inúmeras formas de entrar em um espaço-tempo sagrados e ter uma experiência de realidade um pouco mágica. Na verdade, isso pra mim é o tempero da vida.

Isso sempre entra nas minhas dificuldades de manifestar interesse por estas práticas que em meios mais acadêmicos e céticos são descritas como “ignorantes”. Acho que é importante saber olhar para o papel do imaginário e como isso é parte do que nos torna humanos. A narrativa oral, e aí talvez poderia incluir as danças populares/sagradas, carregam a função de delimitar e estabelecer os costumes e normas de um grupo. É uma forma de existir no mundo através do imaginário. Acredito que a principal característica que temos como humanos, independente de outros fatores como raça, classe social, ideologias e outros que nos distanciam e, muitas vezes, são responsáveis por rupturas, é a imaginação.

“Tengo fechou novamente os olhos, respirou fundo e reorganizou em palavras os seus pensamentos. Ao alterar a ordem das palavras, as imagens tornavam-se mais nítidas. E o ritmo também era mais preciso.

Movimentou os dedos no ar como se fosse o próprio Vladmir Horowitz diante das oitenta e oito teclas do seu piano. Em seguida, com o coração decidido, pôs-se a digitar as palavras no processador.

Começou a descrever um mundo em que, ao anoitecer, havia duas luas alinhadas na parte leste do céu. Escreveu como as pessoas viviam e como o tempo fluía naquele mundo.” (p. 74-5)

Obs: a professora convidada era a Laura Bauermann a dança era Maçambique. Ela deu referências sobre o assunto com as autoras Graziela Rodrigues (Bailarino-Pesquisador-Intérprete: Processo de Formação)  e a tese da Luciana Prass (Maçambiques, Quicumbis e ensaios de promessa : um re-estudo etnomusicológico entre quilombolas do sul do Brasil), para maiores detalhes.

Obs 2: o livro que eu estou lendo é o segundo volume do 1Q84 do Haruki Murakami, de onde saiu a citação.

Obs 3: essa imagem é do Deviant Art, que alguém (lerms) criou a partir do livro, 1Q84.

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