Estudamos dança sagrada este semestre, que está profundamente ligada à religiosidade e aos ritos de povos primitivos e, com isso, pude ampliar a minha visão sobre os motivos e sentidos de algumas práticas, para talvez refletir sobre a sua permanência ou desaparecimento.

A parte prática das danças chamadas sagradas, envolve o encontro com o que era divino. Uma forma de se comunicar com a divindade através do movimento. Isso em uma época em que a humanidade era submissa às forças da Natureza, sujeitos a mudanças bruscas que ameaçavam a sua sobrevivência. Então, dançavam pela colheita, pelos nascimentos, pelas mortes, pelos ritos de passagem. Era uma forma de honrar a sua permanência e transposição de obstáculos. A via do corpo é um tanto lógica, é a conexão do que se considera “eu” com o mundo exterior.

Ou, pensando no que disse Damásio durante uma entrevista para a questão “por que o ser humano desenvolveu uma consciência de si?”: “Penso que o corpo precisa verificar sem cessar que seu equilíbrio (sua homeostase) está sendo respeitado. O cérebro deve receber informações atualizadas sobre o estado do corpo a fim de regular os mecanismos vitais. Diante de um perigo, o corpo reage por meio de um conjunto de reações fisiológicas, que o cérebro converte em atividade neuronal. É preciso aceder à atividade neuronal e tomar consciência dela para agir. Para o organismo, é a única maneira de sobreviver num meio em perpétua mudança. As emoções, sem sentimentos conscientes, não bastam.”

Giro Sufi

Isso me ajuda a pensar que as danças eram motivadas por um estado cerebral. Pode-se pensar nas danças e nos ritos como um mecanismo de manutenção da adaptação ao ambiente, como uma prática que visava à sobrevivência. Ou uma maneira de estimular essa criação de consciência de si, pelo movimento coletivo. Talvez fizesse sentido crer e fazer aqueles ritos. Mas isso é recente demais, e talvez um pulo muito grande.

O que eu li no texto de Wosien relaciona as danças e simbolismos de povos diversos, mas que em geral envolve, antes de um ato planejado e deliberado, uma descarga de energia espontânea e involuntária diante dos sons e movimentos ao redor. Uma maneira de entrar em contato com o deus, que representa o poder e a origem da existência, e estabelecer a sua própria identificação com esse deus criador. Assim, é um ato para entrar em contato com a sensação de totalidade do ser, para unir-se com a natureza e revelar o espírito que habita a forma material. Há também a relação com a recriação rítmica dos ciclos de vida, um espelhamento daquilo que é observado externamente (a planta que nasce, cresce e morre, o dia que nasce, cresce e morre, as estrelas que formam figuras no céu, as montanhas que são grandiosas etc).

Então, é possível perceber que a partir do momento em que se perde o vínculo com a natureza, e impõe-se o domínio sobre ela, essas ideias desapareceriam. Afinal, esse suposto poder perderia o seu significado, e a natureza passa a ocupar um papel secundário para a existência humana. Nós somos os senhores da terra e deus está morto, não é? E o conhecimento científico passa a ser o meio para esta busca com a totalidade do ser, uma espécie de busca pela onisciência, em que o novo deus é o cientista (“a ciência já comprovou que tal e tal coisa é Verdade.”)

Seria a rave um ritual de dança sagrada contemporânea?

No entanto, o que me chama a atenção é que por mais que a ideologia tenha perdido o seu sentido inicial (união com a natureza e busca da totalidade com o ambiente externo como forma de construir conhecimento, ou experiências de corpo), as práticas mais bobas seguem esse mesmo preceito. Se pensarmos em festas de casamento com a Macarena obrigatória, a valsa de 15 anos, ou festas coletivas que usam o ritmo da música para “alucinar” os participantes (baile funk, raves, balada) elas ainda guardam parte desses ritos de celebração coletiva e, no caso das últimas, o objetivo de ter uma experiência de corpo que transcende a experiência cotidiana. Quando alguém sai pra dançar, é para ”sair do seu corpo” e entrar em um estado elevado de êxtase. Isso é bem primitivo, e pode não ter nada a ver com nenhuma divindade. Mas é semelhante ao que os antigos consideravam ”deixar-se tocar pelo divino”.

Por isso, que cada vez que algum amigo ateu ou agnóstico faz um comentário jocoso sobre as crenças ou práticas de outros (e ainda por cima coloca tudo no mesmo saco, sem tentar compreender as diferenças sutis e motivações diferentes), eu fico imaginando aonde é que ele se trai nas próprias práticas, ou se alguém consegue viver uma vida estoica de forma a nunca buscar uma experiência de corpo que transcenda a experiência do cotidiano. Na verdade, eu penso que tudo é uma questão de imaginação e retórica.

Além disso, a questão sobre o instinto de crença é interessante pra mim. Se tudo que compõem o que chamamos de “eu” é um estado mental, ou cerebral, a propensão à crença deve ser igualmente resultado de um esquema neurológico. O deus, ou a ausência dele, está no cérebro de cada um.

Então, o que me parece é que podemos cruzar o conhecimento derivado de estudos sobre cérebro e mente para pensar sobre os ritos e danças sagrados, sejam eles primitivos ou contemporâneos. No entanto, em termos de experiência corporal do cotidiano, eu sinto falta de quando dançar com um bambolê me colocava num estado de corpo elevado e extático, independentemente de isso estar relacionado com uma herança arcaica da percepção da natureza (eu por exemplo, odeio acampar, e não gosto da ideia de me submeter aos poderes da natureza).

 A referência do texto, que não é uma publicação científica é: WOSIENS, M. G. Danças sagradas: O encontro com os deuses, 1996. 

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