A Tiana Zoumer foi a minha primeira grande inspiração do bambolê. Eu comecei a bambolear por volta de agosto de 2010 e em alguma pesquisa por vídeos no Youtube encontrei aqueles em que ela dançava ao som de músicas eletrônicas em um pátio com gramado, usando bambolês menores. O que mais me admirava, era a musicalidade e a forma inusitada como ela manipulada o bambolê. Hoje, seguramente ela está entre as “celebridades” do bambolê.

Mas com os anos, eu fui me distanciando do desenvolvimento dela e hoje, ao me deparar com um vídeo em que ela compartilha a coreografia que está preparando para uma sequência de workshops, me peguei pensando sobre essa trajetória.

Primeiro, vamos falar do seguinte: essa menina tem grandes habilidades motoras, ok? Este é o primeiro vídeo que ela compartilhou no Youtube, em julho de 2009, quando ela ainda respondia por “Wanton”. Na descrição, ela diz ser o terceiro mês de bambolê. Em três meses, ela faz o mesmo que eu faço em três anos. Ou seja: bambolê na cintura, no peito, nos joelhos e no ombro, tirando a cabeça (shoulder duck out). Truques básicos com as mãos, como subir e descer, transferências de sentido, uso do plano vertical etc. O básico.

Mas o vídeo que me chamou a atenção a respeito dela em primeiro lugar foi o “Size Matters”. Neste, ela usa um bambolê menor, e já trabalha com o estilo de improvisação onde é possível perceber que ela se desvinculou totalmente da técnica “básica” e já exibe as características marcantes de trabalho com a manipulação do bambolê no espaço, isolamentos e um ritmo particular. Pra mim, é aí que ela começa a se destacar como alguém que está plantando sementes para um trabalho “especializado”. (Na verdade, este vídeo aqui é o que mostra bem claramente um processo de mudança.) O vídeo “Size matters” é próximo ao marco de um ano de bambolê dela (2010).

Um tempo depois disso, ela ficou conhecida, largou o emprego para se dedicar especialmente ao trabalho com bambolês (circa 2012/13) e estabeleceu este estilo próprio, marcado pela manipulação do bambolê em planos e isolamentos. Ela também passou por uma residências artística em um circo mexicano, onde trocou figurinhas com a Brecken Rivara, outra celebridade “especializada” do bambolê, em que ela passou a incluir trabalho de chão e deslocamentos. Na verdade, nessa trajetória, ela construiu, a partir dos estudos de improviso, uma linguagem particular, com um vocabulário específico, como que a marca registrada dela. Nesse caso, pelo que eu entendo, ela desenvolve sequências pré-definidas para explorar esse vocabulário. 

Mas não é só isso. Na descrição do vídeo ela descreve o trabalho:

“Os micromomentos são o foco das minhas aulas. Os meus movimentos são lentos e isolados para que as aulas acentuem o fluxo transicional. Não como movimentos em si, mas como sementes de movimentos. Eu ofereço técnicas por meio de trajetórias para que a estrutura possa ser desenvolvida e explorada pelo fluxo do dançarino.”

Ela menciona textura, toque, respiração. É uma técnica baseada não somente em um estilo visual, mas que preza pela sensação e pelo fluxo do movimento.

Posso apontar para várias coisas admiráveis a respeito dessa trajetória:

1. O quanto as tecnologias de registro em vídeo são importantes: não somente para ela ficar conhecida, a partir do anonimato, mas também por registrar o desenvolvimento deste trabalho, como tantas outras pessoas utilizam para acompanhar o seu próprio desenvolvimento técnico. Ele revela a fragilidade do processo e não somente o resultado pronto. Aliás, a lista de envios do canal dela é absurdamente longa. Quem quiser estudar o estilo dela, tem muito material.

2. O cenário comercial do setor, digamos assim. O quanto as tecnologias aprimoram as produções, afinal, desde que ela passou a ser uma referência para o meio, está numa posição de produzir conteúdo superior. Se antigamente o vídeo era gravado direto, no pátio da casa dela, agora ela contrata uma produtora, ou produtores que fazem um trabalho de edição, figurino etc. Isso é uma tendência geral, mas que cada artista faz à sua maneira.

3. O sistema de workshops “especializados”. Acredito que entre as pioneiras da dança com bambolês (a Annah Hoopalicious e a Christabel Zamor), a técnica ensinada era a “básica”, a partir do bambolê na cintura e incorporando truques. Desconfio que foi a partir do trabalho do Baxter que apareceu uma setorização por especialidades. Então, tem o cara que trabalha quase nada na cintura, mas trabalha o fluxo e as reversões, vendado. Tem a menina que trabalha só com minis e isolamentos. Tem a menina que trabalha só com técnicas de chão. E assim, se cria mercados diversos, para interesses também, diversos.

4. A trajetória artística se expande para além do bambolê. Tanto a Tiana, quanto a Brecken se voltaram para outras técnicas de circo e dança. Além disso, a Tiana se tornou uma espécie de personagem, quando ela raspa a cabeça, se livrando de uma marca do antigo “eu”, que bamboleava loucamente no pático com o cabelo no rosto, e passa a ser a monja do bambolê. Ela escreve poemas, e mesmo a descrição da aula dela é lírica, não é algo meramente informativo.

Por esses motivos, eu continuo admirando o trabalho que ela fez, mesmo que não seja a linha que eu faço, lógico. Acho muito interessante poder testemunhar uma trajetória artística em desenvolvimento.

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