Hoje fui assistir ao espetáculo do Ballet Stagium e tenho uma lista para organizar minhas impressões, que como toda impressão, está sujeita a falta de conhecimento prévio, gosto pessoal e outros elementos do inconsciente:

– Eu sei que é ballet e que isso já está no nome da cia e é a escolha estética deles, no entanto, acho estranha a escolha da música popular brasileira com uma dança “erudita” que resulta num diálogo dissonante entre a natureza da música, o imaginário da letra e talvez até da personalidade escolhida (Adoniran).

– Isso me faz refletir sobre o quanto o ballet é uma linguagem e que não necessariamente se presta para abordar todas as temáticas possíveis, ou na verdade, me deixou perplexa em relação a essas apropriações culturais. Afinal, a temática é brasilidade mas a técnica europeia/erudita/de elite é empregada para isso. Seria como escrever um poema sobre a Amazônia e eleger o haikai como forma.

– E sobre a harmonia entre escolha temática e resultado cênico, pude ver o seguinte: na música “Bom dia, tristeza”, a temática era clara, óbvia e universal. No entanto, a coreografia, me parecia obscura quanto à adequação ao tema. Dito de forma bem clara: se a música fosse outra, que falasse sobre outro assunto, ou nenhum, não afetaria em nada a recepção. Se eu assistisse só aos movimentos sem trilha sonora e alguém me pedisse para deduzir sobre o que se tratava a peça, eu não saberia reconhecer “é sobre tristeza”.

– O que me leva a uma quebra quando uma música do Yann Tiersen (músico de vanguarda, multiinstrumentista e compositor francês de origem judaica com raízes belgas e norueguesas), se sobrepôs à música de Adoniran. Não compreendi a mistura, se havia alguma conexão simbólica ou se foi uma escolha aleatória.

– No entanto, gostei bastante do discurso da diretora, que falou sobre a criação coreográfica como oriunda de vivências e experiências. Ela citou o trabalho realizado pelo grupo na Febem, que levava dança de rua e dança do ventre para os jovens, onde eles atuaram durante 7 anos e como isso marcou o grupo. Logo, não é como se não fosse visível essa adequação de linguagens. A diretora via o quanto o ballet não combinava com a condição dos jovens que eram seu público-alvo e reconheceu na dança de rua uma linguagem capaz de tocá-los, assim como a dança do ventre como uma forma de abordar a falta de amor ao corpo, pelas meninas.

– Na parte de retrospectiva no grupo, com uma seleção de datas e trechos, também pude observar que em alguns espetáculos eram mais claros o vínculo temático com a coreografia. O que eu mais pude enxergar a conexão foi o de Chico Buarque com a roda, o poema de trás pra frente, a formação dos bailarinos. Ali, o vínculo do movimento com a temática e a música não eram obscuros, era claro para mim, e por isso, apreciei com mais entusiasmo.

– Quanto mais estudo história da dança, me sinto apta para refletir sobre questões de escolha estética e sobre a dança como linguagem. Confesso que gosto demais das rupturas estabelecidas pela dança moderna e especialmente da nova narrativa estabelecida pela dança-teatro de Pina Bausch. Apesar de a tradição do ballet ter a sua beleza e valor, gostaria de ver esses movimentos pós-modernos mais presentes nos espetáculos e nas grandes cias Brasileiras.

– Geralmente a ideia de romper com expectativas (um ballet se servir de música popular brasileira) me agrada. Talvez nesse caso o meu gosto pessoal afetou a minha recepção (não gosto de ballet). Mas penso no espetáculo Lecuona do grupo Corpo, que também é uma cia que usa o ballet como técnica básica do seu corpo de baile e que também elegeu a obra de um músico (não brasileiro) com objeto de inspiração. No entanto, o seu “vocabulário” de movimento é mais livre (dança contemporânea), e, para mim, expressa com mais clareza a temática de cada par música/coreografia (aquele teste “se eu assistir a dança sem música, consigo extrair alguma temática?”). Não acho que a dança tenha uma obrigação de ter um significado óbvio, mas é esse tipo de coisa que me pergunto atualmente em relação ao que é possível expressar através do movimento. Até porque a dança é dependente da música, a ideia seria de complementariedade entre esses dois elementos. Vejo isso acontecer nas coreografias de Lecuona, mas senti falta neste espetáculo, Adoniran. Em alguns momentos isso era bem claro, como na música das mariposa, mas não observei/senti uma coesão global.

– No site do Ballet Stagium é possível ver a lista de inovações de seu trabalho, que inclui principalmente a ocupação de espaços inusitados, também conectados ao imaginário brasileiro.

– Ainda sobre a indagação ballet x inovação e limites de expressividade, lembrei da divulgação de uma cia de ballet de São Francisco (Smuin), “é ballet mas é ousado/sexy/Broadway/diferente”. Não assisti a nenhum espetáculo deles, mas a abordagem parece incluir o que é da natureza do ballet (precisão, alinhamento, técnica etc) mas ir além disso e experimentar extrapolar fronteiras, que é também o que me pareceu o objetivo do Stagium a partir dos vídeos dos outros espetáculos. Acho admirável essa experimentação, afinal, é o que tende a trazer evolução para essa (e outras) forma(s) de arte.

 

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