Frequentemente me perguntam “pra que estudar dança?” ou afirmam “dança não é uma coisa que necessita ter curso superior”, ou ainda “isso aí de ter aulas de dança como disciplina no colégio é ridículo”.

Geralmente a pergunta vem de gente que acha que o seu objeto de estudo é muito superior, obviamente, e também de pessoas que não se sentem à vontade com seu próprio corpo, logo, qualquer matéria que envolva corpo é evitada ou eleita como menos importante. Eu não perco muito do meu tempo explicando por que é importante estudar dança, porque acho que cada um deve estudar o que bem entender e é isso. No entanto, esbarrei neste link hoje e julguei digno de comentário:

Este vídeo é um exemplo de como a dança pode ser utilizada para muito mais que entretenimento. As mulheres na vitrine dançam de forma sensual, coreografada, como poderia ser visto em qualquer clipe de música pop e os transeuntes assistem, aplaudem, consomem. Ao final, o recado diz

“Todos os anos, milhares de mulheres têm uma promessa de carreira em dança na Europa Ocidental. Infelizmente, elas acabam aqui. Acabe com o tráfico. As pessoas não deveriam ser vendidas e compradas.”

O silêncio que segue e a expressão dos transeuntes é de reflexão. Então, por meio da dança é possível estabelecer um diálogo sobre as coisas que acontecem no mundo. Isso pra mim – como estudante de dança – não é novidade. Temos uma história de artistas que pensam sobre o corpo e marcam com o seu trabalho a forma de pensar da sua época. Um exemplo complexo pode ser visto na dança japonesa do pós guerra (Ankoku Butoh, ou Butô) que explorava o grotesco, o sórdido e a escuridão de um mundo em (violenta) transformação. No entanto, isso ocorria em ambientes especializados, com artistas especializados e para um público especializado.

Acho relevante que a performance deste vídeo acontece em um ambiente urbano e que atinge pessoas comuns. Mostra o quanto a dança pode ser fonte de desacomodação de ideias e provocações urbanas no âmbito do cotidiano. Também que a “dancinha” pode carregar mensagens, ou que não é preciso códigos complexos para funcionar como linguagem provocadora.

A campanha é uma criação de Duval Guillaume como parte do movimento global Stop The Traffik que visa promover consciência, informação e ação como forma de acabar com o tráfico humano que conta com milhares de ativistas em cerca de 50 países.

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