A semana que está terminando foi bastante movimentada em termos acadêmicos e de experiências, e conectou muitos pontos recorrentes das minhas reflexões. O paradigma do acesso à informação alterou a forma como se lida com o conhecimento e isso ainda é pedra no sapato de muita gente. Tive dois momentos que me mostraram isso:

1. Discussões durante a aula sobre inclusão de pessoas com necessidades especiais, ouço o seguinte de duas colegas:

“Eu vi uma menina com Síndrome de Down na quarta série que aprendia coisas completamente diferentes do resto da turma. O que ela aprendia era muito mais fácil.” – isso dito como uma forma de condenar a inclusão da menina na turma. Como um ”coitadinha”.

“Eu nunca vou saber como é ser cega.” Como argumento de falta de recurso para acolher pessoas com experiências e necessidades diferentes.

2. Palestra do prof. Perini sobre o estudo da Gramática como Disciplina Científica. O argumento resumido é o seguinte: se as disciplinas consideradas ciências (Biologia, Matemática, Física) são capazes de adaptar o conhecimento a partir da realidade de novas descobertas, por que não fazer o mesmo em relação ao estudo da linguagem e da gramática? Exemplo simples: o livro de geografia diz que Saturno tem 9 satélites, hoje se sabe que ele tem 21. A partir disso o professor tem a responsabilidade de lidar com essa nova informação diante dos seus alunos.

Em relação à gramática é possível perceber que o argumento de autoridade (“Fulano descreve perfeitamente como a língua Portuguesa deve funcionar para ser correta por isso, vamos seguir à risca e ensinar exatamente isso, sem questionamentos”) ainda acontece na cabeça de muita gente, o que tira a responsabilidade individual do questionamento e da construção de conhecimento, ou seja, não preciso perder meu tempo pensando sobre isso.

Exemplo específico: a gramática descreve verbos como pertencentes à 5 categorias. Logo, todos os verbos que porventura apareçam devem ser encaixados nessa categoria, indiscutivelmente. Isso é a maneira de tentar descrever algo que está em constante movimento, e acaba aprisionando o pensamento – e causando inclusive, sofrimento nos aprendizes e estudantes.

Eu não sou gramática, mas assistindo à palestra pude pensar no que o acesso à informação contribui para o desconforto generalizado:

Para quem está acostumado com uma realidade em que a informação chega através de livros e através de autoridades inquestionáveis é difícil pensar que hoje todos têm autonomia de pensamento sobre as informações que estão disponíveis. Então, o papel do professor costumava ser “aquele que sabe mais e está ali para responder perguntas capciosas e difíceis” agora é substituído pela ideia do professor como “instigador de ideias e criador de autonomia de pensamento e acessibilidade à informação”. Tanto professores como alunos não estão adaptados a esses novos papeis.

Quem se sente desconfortável logo vai pela via da descrença “duvido que o Fulano sabe tudo sobre classe de palavras. Garanto que ele não saberia explicar tal ocorrência.” Como se o mundo fosse um lugar de marcar certos e errados. De respostas e fórmulas prontas.

O mesmo eu penso sobre as discussões sobre inclusão, como o medo daquilo que pode (e vai) trazer desconforto, dúvidas e problemas. Então, se eu não sei como é ser cego, não tenho como me relacionar e oferecer conhecimento para alguém cego. Então, a menina que está na quarta série e aprendendo algo “menos difícil” que os outros colegas mostra o quanto o ensino está fracassando, porque o objetivo é aprender coisas difíceis. Como se ensinar fosse despejar informações que seriam absorvidas, contidas, guardadas e ponto final. Como se tudo fosse linear.

E tem o discurso da exclusão. Ouvi também “eu quero que ela (a professora) me explique como isso é feito na prática, porque os outros colegas vão excluir o colega diferente. Eu vi isso acontecer em tal lugar.”

Eu não disse isso pra ela, mas parece um discurso impregnado de medo. E parece esquecer convenientemente da responsabilidade individual não só como (futura) professora, mas como ser humano da influência ativa no ambiente. Se ela (e todos) olharem para a inclusão de alguém diferente (não importa o que isso possa ser) como um obstáculo para o acolhimento, isso diz muito mais à respeito da forma como ela vê o mundo, do que como ele realmente funciona. Ou seja, para ela o mundo é um lugar hostil, onde tudo está pronto, e ela não pode interferir de forma a melhorar. Pelo menos, não sem alguém (de preferência a professora) ditar exatamente como isso deve ser feito.

A pedra no sapato e desconforto – seja no ensino de gramática ou na inclusão no ensino – parece vir da falta de jeito para lidar com um mundo diferente da informação que vem pronta e da ausência de responsabilidades de refletir e questionar e, principalmente, de CRIAR novas soluções. Me parece que nesse contexto, a Arte e a criação possuem um papel fundamental na formação de seres humanos, como forma de ver um todo e de se relacionar com estruturas abstratas e instáveis.

Lembro do quanto alguns ex-amigos pragmáticos desprezavam o fato de que eu dançava e estudava Russo como algo “inútil”. O bom mesmo é aprender algo que se usa. Que dá dinheiro, respeito.

E quanto mais eu penso sobre isso, mais eu vejo que a Arte é realmente o que pavimenta um caminho para mais humanidade e suavidade.

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