Hoje li o artigo “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” de Jorge Larossa Bondía* para uma disciplina da Educação e me surpreendi com como o texto está alinhado com a minha busca pessoal, desde que descobri os métodos de dança ou práticas que valorizam a experiência e o acesso à diferentes estados de corpo.

Como parte da sociedade da informação, por muito tempo fui estimulada a associar inteligência à quantidade de conhecimento, mensurável pelas informações que uma pessoa pode conter. Então, ao me deparar com práticas focadas na experiência (de respiração, de movimentos pequenos, sem fins estéticos ou mensuráveis) pude, muito lentamente construir um caminho de apreciação da contemplação e da experiência do movimento, em vez de sua estética.

Como diz o autor:

“Nós somos sujeitos ultrainformados, transbordantes de opiniões e superestimulados, mas também sujeitos cheios de vontade e hiperativos. E por isso, porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos sempre em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E por não podermos parar, nada nos acontece.” p. 24

Essa condição de saturação de informação e necessidade excessiva de se impor como produtores de opiniões seria responsável pela anulação da possibilidade de experiência, pois aniquila o espaço de imprevisibilidade, de abstração. O sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura (p. 26).

“… o sujeito da experiência é também um sujeito sofredor, padecente, receptivo, aceitante, interpelado, submetido. Seu contrário, o sujeito incapaz de experiência, seria um sujeito firme, forte, impávido, inatingível, erguido, anestesiado, apático, autodeterminado, definido por seu saber, por seu poder e por sua vontade.” – p. 25

Isso me fez lembrar de uma situação em que fui pega de surpresa no meu falso conforto e estabilidade emocional que me fez suspender o automatismo da ação e que me deu tempo e espaço de contemplação e de acesso a este corpo (meio fechado):

Atualmente estou sem inspiração, ou mesmo desejo por aulas de dança. O que costumava ser algo inconcebível durante a minha adolescência e que me fez muita falta no início da vida (dita) adulta, agora me causa desconforto e dúvidas. A isso atribuo essa transformação de ideologia quanto ao que me move a dançar. Se antes era movida pelo conjunto de socialização, atividade física (endorfina!) e uma vontade natural de seguir os passos da professora, isso hoje não basta. Hoje encontro com frequência um conflito interno. Sinto que tenho outro corpo e não sei mais como dançar com ele. E também que estou sempre em confronto com uma voz interior que me cobra resultados/opiniões/informações o tempo todo, como forma de validação pessoal.

No entanto, quando vi a divulgação de uma oficina de dança que misturava Butô e Flamenco, que era o material de pesquisa de uma bailarina apresentando seu espetáculo na cidade, senti que era a coisa certa a experimentar. Era num domingo de manhã e eu nunca tinha dançado Flamenco e só havia lido alguns artigos sobre Butô.

Cheguei na CCMQ e fiquei tímida com a falta de movimento no prédio, me sentindo estranha e estrangeira. Quando estava saindo pela porta, decidida a ir embora, a professora me viu e perguntou se eu estava ali pela oficina. Pega de surpresa, não consegui mentir e disse que sim, mas que estava esperando alguém, mas que já iria subir.

O que começou com medo e desconfiança e, principalmente, insegurança, terminou sendo uma manhã de descobertas e experiências ricas. A oficina incorporava elementos de Flamenco (usávamos sapatos de salto, e executávamos alguns passos básicos), além dos elementos de Butô, como mote para acessar certos estados de corpo. Além disso, a questão “o que você faria se fosse seu último dia de vida?” permeou o desenvolvimento da dança e dos movimentos. Logo, era uma construção absolutamente pessoal, individual e singular. Foi bonito ver e ouvir a construção das colegas e me sentir segura e à vontade para compartilhar a minha.

Essa experiência em dança, contribuiu para a minha reflexão pessoal sobre a influência desse pensamento de estar no corpo, viver o momento presente, estar em contato com a natureza, contemplar o momento e o mundo (que é a questão que eu sigo buscando, mesmo vivendo nesse mundo acelerado que cobra resultados e resultados e resultados). A partir da leitura do texto, pude processar essa ideia que o saber da experiência não é composto somente de informações, ou de opiniões e sim, que é o que se passa quando se coloca o afeto e a singularidade a uma informação ou opinião. Envolve a inquietação, e tomar as coisas para si. Experiência é aquilo que me toca, aquilo que passa por mim e soma à informação ou à opinião.

Na verdade, nesse exemplo da oficina, o Flamenco em si, não era importante. O Butô em si, não era importante. Afinal, ninguém ali estava em busca da técnica refinada em nenhum deles. O que importava era esse encontro fugaz, essa reflexão e viagem no tempo em seu último dia de vida, e a presença daqueles corpos, naquela sala. E assim, o momento passou, a oficina terminou. Aquelas danças, daquele dia, foram engolidas pelo tempo, e só viveram ali. No entanto, volta e meia, a sensação de estar lá, de respirar de um jeito, de contrair determinada parte do corpo, o modo de caminhar, ou de bater o pé no chão, me transportam de volta para aquele momento, com a forma imperfeita e enfeitada que a memória proporciona (nesse ponto, a memória do corpo é tão mais eficaz).

E o que me trouxe à este pensamento ao ler o texto para a disciplina da Educação é que essas pausas para reflexão durante essa navegação no mar da ultrainformação e automatismo são difíceis e raras, mas inesquecíveis. Na verdade, não é como se eu tivesse saído dali mudada pra sempre, uma pessoa melhor, ou qualquer coisa assim. A vida seguiu do mesmo jeito, continuo insegura, sem fazer aulas regulares de dança e sem saber muito bem o meu lugar.

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Também sempre penso na dança com bambolês como uma forma de retornar a esse estado de experimentalismo, de não saber aonde estou indo. Quando pego o bambolê e seleciono músicas (ou não), não sei o que vai acontecer no meu corpo. Posso encerrar a prática em cinco minutos, ou uma hora. Posso ser mais ou menos criativa, variar mais ou menos a minha movimentação. Ser mais rápida ou lenta. Usar mais as mãos, mais a cintura, treinar aquele movimento difícil. Ou não. Nada é previsível.

E é por isso que sigo praticando essa dança, ainda que na minha forma imperfeita e insegura. Quem sabe com as minhas aulas da Graduação (com essas leituras interessantes), vou criando recursos para me tornar uma professora como sonharia o Rubem Alves?

* Conferência proferida no I Seminário Internacional de Educação de Campinas, traduzida e publicada em julho de 2001. Texto traduzido do espanhol por João Wanderlei Geraldi.

A Oficina Experimentação Coreográfica entre Dança e Performance, foi ministrada por Laura Pacheco.

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