Há tempos penso em como abordar o tema de video-dança em relação ao hooping.

Na verdade, é importante refletir sobre o vídeo-dança como categoria e como parte da experiência de produção e consumo em dança.

“A dança é uma arte que lida com a efemeridade” ( p. 54)shakti

Portanto, desde os primeiros experimentos com a captura de imagens, abre-se a possibilidade de aprisionar o que antes viveria apenas na memória do público ou nas sensações do intérprete. Assim, a mesma performance pode ser re-assistida e o dançarino pode ver a si mesmo realizando o trabalho antes somente experienciado no corpo.

No entanto, atualmente, o vídeo-dança é mais do que o registro estático de uma performance, e sim, uma prática específica de criação de coreografia para a câmera (p. 66). Logo, essa prática permite a exploração de ideias sobre tempo, espaço e movimento por meio de ângulos, locação e técnicas de edição, o uso de uma linguagem híbrida (coreografia para a câmera) e questionamentos sobre coreografia.

A partir disso, posso pensar na presença do vídeo para a consolidação do Hoopdance como modalidade de dança: A dança com bambolês tem no vídeo uma forma de realização expressiva, que é característica exclusiva do gênero. Nesse sentido, a produção e o consumo de vídeos entre os praticantes de Hoopdance é bastante diferente daquele de outros gêneros.

Ela ocorre para indicar presença e participação (iniciantes produzem vídeos caseiros sem grandes requintes, por exemplo), para registro de performances, registro de oficinas, para divulgação de workshops, como vídeo-dança propriamente dito, vídeos que ensinam truques (tutoriais) e na estrutura de competição entre vários participantes diante de um grupo de jurados (Hooping Idol).

Dessa lista, acho importante compartilhar vídeos que mais me interessam e que exemplificam alguns desses aspectos:

~Registro de Performance~

“Tiana Hoops at Electro & Blues Cellar Door Cabaret”

A performance ocorreu em 14 de dezembro de 2012, foi filmada e o vídeo recebeu alguns efeitos (poucos). A câmera estava em um ângulo alto e pôde capturar o local da performance, sem o público. O vídeo traz créditos de produção, videografia e edição, portanto, é um produto artístico mais do que meramente um registro.

~Vídeo-dança~

桜とフープダンス/Hoopdance to Brim

Este vídeo apresenta claramente alguns aspectos do que se entende por vídeo-dança considerando a coreografia feita especificamente para a produção, a escolha do cenário e figurino de acordo com a temática (chegada da primavera). No entanto, neste exemplo, ainda vemos a dança em uma tomada só, em um único ângulo, dispensando o uso de técnicas que o uso de vídeo pode oferecer. Neste vídeo não há créditos, o que aponta para a possível produção autônoma da própria performer, Ayumi.

~Vídeo-dança/divulgação~

Floored! – Hooping by Brecken

Neste vídeo, temos um trabalho complexo de edição, com ângulos e cortes que estabelece um diálogo com a proposta de trabalho da performer/instrutora Brecken. Ela ficou famosa por mesclar o bambolê com o chão, e parte desta experiência para estabelecer uma técnica própria e elaborar seus workshops. Logo, sua divulgação em vídeo traz esse aspecto como foco. Eu percebo que o trabalho com closes e velocidade trazem ao vídeo mais que uma “degustação visual” e sim, uma forma de estender ao espectador a sensação proposta pelo trabalho. O vídeo também apresenta créditos de edição e captura de imagens.

~Vídeo-dança/divugação~

One Hoop One Love – Shakti Sunfire

Este vídeo é o que mais representa pra mim essa realização da expressão sensorial da dança como forma de divulgação de trabalho do profissional e produto artístico: as cenas rementem obviamente a uma experiência sensorial (o close na mão em contato com a terra, o reflexo do sol, a água do mar etc) e a narração do texto torna bem explícita a relação do sujeito (Shakti) com a prática da dança.

A mensagem deste último expressa o que é para mim, a diferença essencial dessa modalidade de dança: o aspecto da experiência e a captura por vídeo. É diferente porque em outras instâncias, a dança está mais ligada a uma proposta estética (vinculada a um gênero específico, p. ex.) ou a produção de narrativa (como nos balés), a dança pela dança, ou a dança como linguagem.

Isso aponta para um surgimento de novas formas de expressão, novas demandas de mercado (produtores de vídeo, editores etc), novas tecnologias e novas formas de pensar no espectador do vídeo-dança (inclusive como possível cliente e consumidor do “produto” – a experiência da dança -).

[citações do texto de OLIVEIRA, Denise. A imagem na cena de dança contemporânea. Lições de Dança 3. Rio de Janeiro: Editora da Universidade 2000.]

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