No promises you’re gonna be happy, the Sheep Man had said. So you gotta dance. Dance so it all keep spinning.”

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A memória de uma amante em um hotel barato move o protagonista deste romance a retornar para o local que aparece de forma recorrente nos seus sonhos, como se mulher, Kiki, o estivesse chamando pelos corredores. É uma novela de detetive. A moça desapareceu e a missão do protagonista, um escritor freelancer que passa o tempo “cavando neve cultural”, é encontrá-la e resolver as peças do quebra-cabeça com que se depara. O seu caminho é cruzado por personagens estranhos, uma adolescente com uma família disfuncional de artistas, um ex-colega de colégio agora ator de cinema e famoso, uma prostituta, a recepcionista do hotel. A dança que ele desempenha é uma espécie de quadrilha improvisada, em que os passos vão sendo dados à medida que as músicas vão tocando, pares são trocados e uma dança circular vai se formando.

Não consegui desvencilhar a ideia do “tudo acontece por um motivo” ao ler esse livro. A maneira como todos os personagens dançam com o acaso, ou como os fatos se desenrolam de forma surpreendente ao redor do protagonista que busca um entendimento de si mesmo, da vida, dos seus desejos e do relacionamento com outras pessoas tem aquele gosto da coincidência mágica e sedutora. Quando ele se deixa levar pela maré, ou ”seguir dançado os passos” à medida que eles aparecem para que tudo siga girando, a vida parece cheia de possibilidades surpreendentes e impensáveis.

Imagino como isso se relaciona com a vida comum e previsível da maioria das pessoas, que sabe exatamente o que está fazendo e para onde vai. Durante as semanas em que li este livro passei a questionar todos os meus atos, escolhas, as minhas danças e as pessoas ou situações inusitadas que porventura surgiram. E para minha surpresa, foi uma experiência interessante. Me senti entrando parte dessa quadrilha improvisada. É realmente uma questão de perspectiva, afinal, o mote “tudo acontece por um motivo” é uma coisa que se convence por necessidade. Se eu quiser conectar fatos entre si e vê-los como uma intersecção mágica, vou conseguir. E isso pode tornar a minha vida mais interessante.

E hoje eu conecto muito fortemente a arte e a vida. Uma coisa não pode ser separada da outra. O que eu leio nas minhas horas vagas, acaba influenciando a minha visão momentânea de mundo, que pode influenciar as minhas escolhas e ações. Entre as coisas mais superficiais, algo que me chama a atenção em novelas de detetive é a relação com a comida. Todo romance desse gênero expões a relação íntima do investigador com a comida. (Neste, o protagonista cozinha para si mesmo algumas vezes. Bebe cerveja com frequência, uísque e piña coladas).

Isso sempre aguça minha vontade para comer ou beber quando estou lendo, o que é algo a ser evitado. É engraçado como isso é praticamente inevitável. É difícil separar o sensível pela leitura e pelo meu corpo presente. Na trilogia Millenium era comum eles comerem sanduíche e tomar café e eu sempre ficava com vontade de fazer o mesmo.

De resto, eu gostei muito do livro, tanto que quis escrever algo sobre ele aqui (mas talvez faça com mais frequência a partir de agora). Ele foi lançado no Japão em 1988. A versão que eu li foi traduzida para o inglês pelo Alfred Birnbaum. E só depois descobri que ele é continuação de outro livro, chamado “A wild sheep chase”.

 

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