Todos concordam que bambolê lembra infância. Geralmente, as pessoas só pensam isso, inclusive. E a relação do bambolê com crianças também parece impor uma ideia de que é só brincadeira e não dança. Quanto a isso, eu acho que cada um pense o que quiser. O que eu tenho para contar aqui é um exemplo de como um bambolê pode ser muito mais que um brinquedo e sim, um portal para um mundo paralelo.

Após sair da oficina oscilante de bambolês na quinta-feira, decidi pegar um táxi no shopping, porque estava chovendo e eu já estava encharcada. Chegando lá, havia uma fila de espera para o táxi de, pelo menos, umas 25 pessoas. Estava cinza, escuro. Eu estava molhada, cansada. Mas respirei fundo e entrei em um modo stand-by.

Na minha frente, uma mãe e duas filhas. A menorzinha não parava de se mexer e falar, e brincar com o banquinho do carrinho de compras. A mãe e a irmã mais velha conversavam sobre qualquer coisa e mandavam a menina parar quieta-que-daqui-a-pouco-ia-trancar-um-dedo. Eu olhei e compreendi que ela tinha energia demais. Também compreendi que a mãe estava cansada e não tinha pique para acompanhar o ritmo da pequena. Daqui a pouco, quando era a terceira ou quarta vez que a menina voltava a mexer no carrinho, ela deu um tapa nos dedinhos dela.

Aí foi aquela pausa no mundo. Ela arregalou os olhos, pega completamente desprevenida e abriu o berreiro. A mãe logo se sentiu culpada, pegou no colo, disse que ela era amada. Ela continuou chorando por qualquer outra coisa, também devia estar cansada. As pessoas começaram a olhar e a fazer aquela cara de desconforto. Aí eu não resisti. Tirei um bambolê e perguntei: “Quer brincar?”

Imediatamente, as lágrimas secaram e ela só balançou a cabeça que sim. A partir daí, o tempo parou. Pra mim, pra ela, talvez para todos os outros na fila. Ela brincava com os bambolês sozinha e depois me mostrava o que ela sabia fazer. “Eu vou te mostrar, olha,” ela repetia sem parar. Ela criou brincadeiras sem eu dizer nada. Eu ajudei do jeito que sempre ajudo os pequenos (ela tinha 3 anos). O meu olhar interessado registrava todo o processo de descoberta de movimentos que ela ia experimentando, o que é sempre muito surpreendente. Foto0619 Foto0620

Chegou a vez delas na fila do táxi. A mãe me agradeceu muito. A menina não parava de repetir frases, ainda dentro do carro “vou fazer bambolê”. E os adultos atrás de mim também tinha um sorriso no rosto. E é assim que “só” um bambolê pode alterar a percepção do tempo de um grupo de adultos sérios e ocupados e tornar a espera por um táxi em um dia chuvoso muito mais agradável. Às vezes eu acho que os adultos deveriam valorizar mais esse processo de entrega para um momento feliz, que é tão mais fácil quando se é criança.

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