“Nosso corpo somos nós. É a nossa única realidade perceptível.” – Thérèse Bertherat

A metáfora do corpo como casa é muito bonita e facilmente compreensível, como para uma casa, sempre tem gente que gostaria de ser mais organizado, que gostaria de dedicar mais da sua atenção para melhorar a limpeza, ou que se preocupa muito com coisas superficiais e acaba dando valor demasiado à elementos que não adicionam conforto, e que na verdade, os distraem da falta de aconchego real. Da mesma forma, o corpo é algo tão discutido na mídia e de forma tão superficial. “Fulana de tal perdeu tantos quilos em tanto tempo com a dieta tal.” “Conheça os exercícios que chapam a barriga.” “Prepare-se para usar biquíni e não passar vergonha.” “Conheça a pílula que queima gordura.” “Compre a porção maior por um preço menor.” “Coma para (tentar) satisfazer um sentimento.”

Uma barriga chapada? Qual é o sentido real disso?

Estamos à mercê de padrões estéticos? Claro. Isso é parte da experiência humana, é importante e existe por um motivo. É importante manter uma boa relação estética consigo mesmo, como um ato de amor-próprio. No entanto, uma visão ”chapada” do corpo, como algo estático e pré-definido em números (peso, medidas) é uma ideia limitante que causa insatisfação profunda, sem falar em uma consciência de corpo externa, ou seja, eu olho para fotos, planas, e projeto ali o corpo que eu desejo ter, em vez de habitar o corpo que eu tenho, aqui e agora.

Ou como disse Gabrielle Roth em seu livro “Os ritmos da alma”:

“Alienados de nossos próprios instintos, perdemos tanto a nossa capacidade de estar cientes como nossa capacidade de prestar atenção. Em meus cursos vejo todos os dias pessoas que não têm ideia de como estão cansadas, famintas, frustradas, solitárias entediadas ou tristes. Elas estão completamente fora de contato com elas mesmas, nem prestam atenção a ninguém mais. Esse estado de inconsciência é semelhante a viver em uma cidade-fantasma de algum filme de caubói tcheco de quinta categoria – só fachadas e rolos de plantas secas levadas pelo vento e ninguém cavalgando nele.”

Essa passagem me fez lembrar da obra de Thérèse Bertherat “O corpo tem suas razões” em que ela afirma logo no início:

“Nosso corpo somos nós. Somos o que parecemos ser. Nosso modo de parecer é nosso modo de ser. Mas não queremos admiti-lo. Não temos coragem de nos olhar. Aliás, não sabemos como fazer. Confundimos o visível com o superficial. Só nos interessamos pelo que não podemos ver. (…) E que tal se, através de nossas sensações, procurássemos as razões do próprio corpo?”

Após conhecer técnicas de consciência pelo movimento, minha visão de corpo, de mundo, de vida, mudou. Antes, minha prática de dança estava alinhada com um padrão de expectativa de resultado (competições, satisfazer um padrão estético de movimento, agradar professores etc). Após uma experiência de epifania, descobri uma nova via de conhecer esse corpo, e buscar habitá-lo de forma plena. Desde então, qualquer atividade praticada (desde a caminhada até a parada de ônibus, até o movimento de fechar as janelas do apartamento) está profundamente vinculada com a minha experiência sensorial de estar neste corpo, aqui e agora. 

Esse é o meu caminho diário em busca do movimento pleno e do corpo feliz. E melhor, sem nunca sentir vergonha.

Isso não significa que meu corpo é perfeito (a perfeição é uma ilusão) ou que ele não precise de trabalho. Pelo contrário, cada dia mais, sinto imensa satisfação em prestar atenção aos mínimos detalhes e fazer novas descobertas, em práticas como Yoga e meditação. E a cada novo aprendizado, consigo trilhar um caminho de satisfação e comunicar aos outros as mesmas estratégias que descubro em mim.

A minha dica imediata seria: Não se preocupe em ter uma barriga chapada. Esqueça tudo o que lê nas revistas e preste atenção no momento de agora. Inspire e expire com qualidade. Sinta o ar que entra e preenche a sua barriga, e solte-o, devagar e profundamente. Repita algumas vezes. Você sente um bem-estar imediato após fazer isso? Ótimo. Repita sempre.

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